Aceno a mulheres, críticas ao STF e pacificação com os EUA marcam a largada da campanha eleitoral
- 16/08/2026
Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) disputam a Presidência Foto: Wilton Junior/Tiago Queiroz/Cauê Del Valle/Divulgação MBL/Taba Benedicto
A campanha eleitoral começou neste domingo, 16, com eventos focados em atrair eleitores da Região Sudeste e atacar opositores criticando seu posicionamento sobre temas como a condução da política externa, principalmente a relação do Brasil com os Estados Unidos.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escolheu como palco São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, onde iniciou sua trajetória como liderança sindical. No evento, ele fez questão de ressaltar o papel das mulheres.
Flávio Bolsonaro (PL) optou pela praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, berço político da família. O candidato usou o palco para atacar Lula e enaltecer o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Único a largar de fora da Região Sudeste, Ronaldo Caiado (PSD) optou por uma espécie de peregrinação por Goiás, Estado que governou até março. Na carreata, condenou o que chamou de querer “criar crise com os Estados Unidos” e alfinetou tanto Lula quanto Flávio.
Renan Santos (Missão) também fez sua estreia neste domingo. Em um ato no Largo São Francisco, onde fica a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), ele chamou Lula de “bêbado” e Jair Bolsonaro de “farsante”, e disse que pretende “exterminar” facções criminosas.
Romeu Zema (Novo) escolheu Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, para marcar sua presença na corrida eleitoral, e condenou a política internacional do atual governo. Ele reprovou a insegurança no País e criticou a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF).
A seguir, veja detalhes do início da campanha de cada candidato.
Lula: ‘Mulheres deste País, não baixem a cabeça’
O estádio de Vila Euclides, em São Bernardo, recebeu o lançamento da campanha petista. Foi lá que Lula liderou as greves dos metalúrgicos, no fim da década de 1970, enquanto a ditadura militar comandava o País. O lugar é tido como o berço político de Lula.
A primeira-dama Rosângela da Silva e a candidata ao Senado Benedita da Silva (PT) fizeram os primeiros pronunciamentos, respondendo a uma demanda de Lula. No último dia 2, durante a convenção nacional do PT, ele disse: “Não é possível que a gente tenha esquecido de, no principal evento da nossa campanha, não ter colocado uma mulher para falar”.
Benedita defendeu a importância de mais mulheres serem eleitas para o Congresso. Também falou em nome de todas as candidatas do campo governista.
Já a primeira-dama homenageou Marisa Letícia da Silva, ex-primeira-dama nos dois primeiros governos do petista. “Foi ela quem bordou a primeira bandeira do PT e é a ela que dedico toda minha admiração”.
Janja ressaltou que as mulheres são a maioria da população e do eleitorado e que têm “sonhos, opiniões, desejos e muita, muita vontade de seguir construindo um País cada diz mais justo e igualitário”.
A socióloga também disse que o Brasil deve ter um presidente que “cuide das mulheres, e que não pense só nas mulheres como alguém que cuida”. A declaração aconteceu poucos dias depois de Flávio Bolsonaro dizer que teve filhas “exatamente” para cuidarem dele na velhice.
Na sequência, foi apresentado um vídeo em que Lula lê uma carta para seu eu de 1979, quando participava do movimento sindical. “Após 47 anos e ganhar três eleições para a presidência da República, nem imaginava que poderia reconstruir o Brasil”, diz na gravação, acrescentando que ainda não está satisfeito porque o “Brasil está pronto para muito mais”.
Após o vídeo, Lula subiu ao palco. Ele começou seu discurso dizendo que estava de chapéu porque fez radioterapia para cuidar de um câncer de pele e não poderia tomar sol na cabeça.
Depois, agradeceu à sua mãe, dona Lindú, dizendo que ela era responsável por tudo que ele é na vida e referendou o discurso de Janja sobre a importância e a participação das mulheres na sociedade. Nesse contexto, frisou a necessidade de lutar contra a violência.
“Mulheres deste País, não baixem a cabeça nunca, porque os homens têm que aprender a respeitar vocês. Deus fez a gente igual. Não é possível que não termine com essa violência”, disse.
Lula também destacou que é o primeiro presidente da República eleito três vezes no País. Em um discurso marcado pela oposição entre trabalhadores e empresários, o petista disse que “eleger patrão é uma contradição” e comparou a escolha a “colocar a raposa dentro do galinheiro”.

O vice-presidente e candidato à reeleição Geraldo Alckmin (PSB), por sua vez, afirmou que a política industrial do governo permitiu a retomada da produção de veículos em fábricas fechadas durante a gestão de Jair Bolsonaro.
“No governo passado, só para citar a indústria automobilística, fecharam a Mercedes-Benz em Iracemápolis, a Ford na Bahia e a Troller no Ceará. Com o presidente Lula, onde estava a Mercedes, hoje está a GWM produzindo veículos; onde estava a Ford, hoje está a BYD”, declarou.
O evento contou ainda com discurso do candidato do PT ao governo de São Paulo e ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad. “Eu poderia falar da retomada do crescimento, da retomada do emprego, de como o presidente Lula, pela segunda vez, coloca a inflação de joelhos, como fez no seu segundo mandato. Ele já era o recordista e bateu o próprio recorde”, disse.
Haddad também destacou as políticas educacionais promovidas pelo petista. O candidato afirmou que Lula teve a “obsessão” de abrir as universidades aos filhos dos trabalhadores, por meio da expansão do ensino público e de programas como o ProUni e o Fies, nos quais trabalhou enquanto foi ministro da Educação nos primeiros mandatos petistas.
Flávio Bolsonaro: ‘O atual governo briga com país em outro continente’
Flávio fez seu primeiro comício em Copacabana, na zona Sul do Rio. Vestindo um colete à prova de balas e uma camisa verde e amarela com os dizeres “Meu partido é o Brasil”, ele atravessou um corredor montado na Avenida Atlântica em direção a um trio elétrico.
Ao seu lado estavam a esposa, Fernanda; o candidato ao governo do Estado pelo PL, Douglas Ruas; a ex-chefe da Caixa no governo Bolsonaro, Daniella Marques; e o candidato a vice de Flávio, Alfredo Gaspar (PL).
Em seu discurso, o candidato lamentou a ausência do pai, Jair Bolsonaro (PL), dizendo que ele não pôde estar presente por ser “odiado por uma parcela dos poderosos” — o ex-presidente está preso, em prisão domiciliar, após condenação por tentativa de golpe de Estado — e fez críticas a Lula.
Flávio disse que “o presidente da República está deixando legado de incompetência e corrupção”. “Lula é o caloteiro da esperança”, disse, acrescentando que “o governo é gastador; consequência é inflação e endividamento”.

O senador acrescentou que vai tratar facções do crime organizado, como PCC, Comando Vermelho e milícias, como terroristas e usou o tema para voltar a criticar Lula. “O atual governo briga com país em outro continente, mas não briga com ladrão de celular, não temos soberania sobre nosso próprio celular.”
Flávio alegou que a gestão de seu pai foi a “última fronteira na defesa pela democracia” e se emocionou ao falar do ex-presidente: “É difícil comparar o Pelé com o filho do Pelé, mas estou aqui com toda humildade”.
O discurso foi interrompido para a reprodução de um áudio do ex-presidente: “O patriotismo e a entrega não tem preço. Meus sonhos, minhas senhoras, irmãos cristãos brasileiros, o meu sonho é o sonho de vocês. Nós vamos conseguir esse objetivo. Queremos e é o nosso dever produzir a felicidade”, diz Bolsonaro no áudio.
Ao dizer várias vezes que “o Brasil vai vencer”, o senador disse que pretende organizar as contas do País e tirar o Brasil “do vermelho”, no sentido dúbio de sanar as finanças e tirar a gestão petista do poder. Flávio declarou que, se eleito, pretende fazer um “tesouraço”, “com corte de impostos, na burocracia e na corrupção, além de corte nos ‘carguinhos’ do PT que mamam nas tetas do governo”.
Flávio afirmou ainda que a gestão de Lula foi “marcada pela corrupção”. “É mensalão, é petrolão, é roubo dos aposentados do INSS. Agora é o marcolão. A corrupção e o roubo do INSS chegaram dentro do gabinete do presidente e na República, que é o Lula”.
O candidato do PL retomou pautas caras ao bolsonarismo. Prometeu pautar a discussão sobre castração química para condenados por abusos sexuais, reduzir a maioridade penal e mudar o currículo escolar para que “os jovens não sejam transformados em militantes”.
No discurso no carro de som, o candidato disse que vai indicar quatro ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF), “homens e mulheres que serão contra o aborto, contra liberação das drogas, que voltarão a respeitar a constituição e darão segurança jurídica ao País”.
Os discursos que antecederam a chegada de Flávio foram marcados por acenos ao eleitorado feminino. Também houve menções ao ex-presidente Jair Bolsonaro e pedidos de “Volta, Bolsonaro” puxados pelo apresentador do evento. Os discursos atacaram direitos de pessoas trans e manifestantes hastearam uma bandeira dos Estados Unidos.
Pouco antes do início do discurso de Flávio, uma candidata a deputada federal do PL puxou xingamentos contra o presidente: “Ei, Lula, vai tomar no c*”.
Ronaldo Caiado: ‘Não tem crise nenhuma com os Estados Unidos’
Em vez de concentrar apoiadores em um único palco, o candidato do PSD escolheu passar por vários municípios de Goiás. Ele começou com uma carreata em Águas Lindas de Goiás e, em seguida, foi de helicóptero para Santo Antônio do Descoberto e Novo Gama. Na sequência, Caiado deve passar de carro por Valparaíso e Cidade Ocidental, encerrando o dia em Luziânia, num “grande encontro” na chácara do prefeito Diego Sorgatto (União Brasil).
A escolha pela peregrinação busca reforçar uma das principais linhas da comunicação de Caiado: apresentar a experiência acumulada à frente do governo goiano como credencial para a disputa nacional. O que chamou atenção neste domingo, no entanto, foi a ausência de seu candidato a vice, Gilberto Kassab, presidente do PSD.
A ausência ocorre dois dias após Kassab dizer que os partidos do Centrão estão com Lula e que Flávio Bolsonaro tem “chance zero” de vencer a eleição, uma declaração que gerou reações do bolsonarista. “Kassab entregou o jogo: o PSD é Lula. São todos eles contra o Brasil”, escreveu o senador, na rede social X.
No sábado, 15, Caiado escreveu na mesma rede social que não apoiará Lula “em nenhum turno” e que sua candidatura existe para “tirar o PT do poder”.
Neste domingo, em entrevista coletiva ao chegar à carreata, o ex-governador de Goiás afirmou que Kassab “está coordenando o lançamento da campanha em São Paulo”. Procurado pelo Estadão/Broadcast, o presidente do PSD disse: “Estou na organização da largada da campanha do PSD nos 27 Estados”.
Já sobre a declaração de Kassab, Caiado disse que houve má interpretação. “Foi mal interpretada. Ele falou o que todo mundo já sabia. O que ele falou é a verdade. Por que os partidos não quiseram lançar candidato à presidência da República? Por que só o PSD lançou? Por que os outros todos entraram na neutralidade?”
O candidato afirmou ainda que “o único político com mandato no Brasil que é oposição ao Lula, que nunca votou no Lula, chama-se Ronaldo Caiado” e que “tem coragem, competência e credenciais para derrotar Lula no 2º turno”.

Quanto a Flávio Bolsonaro, Caiado afirmou que “não adianta” lançar um candidato que vai ter que “ficar explicando seus problemas”. “No primeiro turno é que realmente a população vai ter que escolher quem é que vai enfrentar o Lula no 2º turno. E não adianta você lançar um candidato que, ao chegar lá, vai ficar explicando os seus problemas. Não ganha eleição”, declarou.
Caiado disse ainda que “os Estados Unidos não mandam no Brasil”, ao ser questionado pela imprensa sobre a relação com o país norte-americano. “Não vamos desviar o assunto para lá, não. Esse povo que não tem discurso e que não tem como explicar a corrupção quer criar crise com os Estados Unidos. Não tem crise nenhuma com os Estados Unidos.”
Por fim, o ex-governador declarou que, se eleito presidente, vai se “sentar na mesa de negociação” e pacificar a relação. “Não se governa brigando, se governa trabalhando para o benefício da população brasileira.”
Renan Santos: ‘Vamos tingir o chão com sangue’
Renan Santos debutou na campanha num ato na Faculdade de Direito da USP, onde estudou, mas não concluiu o curso.
Usando um colete à prova de balas, ele adotou um tom belicoso e afirmou que pretende “exterminar” facções criminosas. “Já no dia 6 de janeiro iremos devastar os primeiros inimigos, vamos tingir o chão com o sangue desses vagabundos”, disse.

O candidato atacou Lula, a quem chamou de “bêbado”; disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro era um “farsante” e “falso Messias”; acusou Flávio de ligação com integrantes do Comando Vermelho; e chamou os políticos do Legislativo alinhados ao bolsonarismo e ao lulismo de “vagabundos”.
Antes do comício, a União Nacional dos Estudantes (UNE) fez um protesto na faculdade, estendendo uma faixa. “A USP não é território para fascista. A Faculdade de Direito do Largo São Francisco tem uma história marcada pela defesa da democracia e pela resistência ao autoritarismo, que precisa ser lembrada quando a extrema direita tenta transformar NOSSO espaço em palco para repressão e violência”, informou o grupo nas redes sociais.
Na sexta-feira, 14, a dois dias do início da campanha, a equipe de Renan informou que o candidato havia sido ameaçado de morte numa publicação anônima e que iria ao evento mesmo assim.
Romeu Zema: ‘Cliente bom você trata bem’
O candidato do partido Novo escolheu começar por Montes Claros, no interior de Minas Gerais. A explicação de sua equipe foi que o ex-governador é admirador de Humberto Souto, ex-prefeito da cidade e ex-deputado que representou a região e faleceu em fevereiro de 2025.
Zema participou de uma missa na Paróquia Nossa Senhora da Conceição e São José e depois falou com a imprensa. Na entrevista, o ex-governador de Minas Gerais destacou sua atuação para atrair investimentos e criticou a política internacional adotada pelo governo Lula.
“Fui o governador que mais andou pelo mundo e pelo Brasil em busca de investimentos”, afirmou. “Sei conversar com o empresário porque já tive a oportunidade de ver e sentir na pele como o Estado brasileiro complica e maltrata a vida de quem trabalha.”
O candidato avaliou que o governo petista conduziu mal a política internacional. “Cliente bom você trata bem”, disse. “Esse governo está tratando muitos países mal, a começar pelos Estados Unidos.”
“Questionou o dólar como moeda, como se mudar para euro ou yuan fosse resolver os nossos problemas, e se aproximou de países que não são democráticos, como Cuba, Irã e Venezuela. Depois vem reclamar que estão sofrendo sanção dos EUA”, disse Zema.
Questionado sobre a união dos candidatos de direita no segundo turno das eleições presidenciais, o político fez uma comparação com as eleições do Chile.
“Estarei no segundo turno e, tal como aconteceu no Chile, toda a direita vai estar unida”, afirmou. Zema adicionou que qualquer um que estiver contra o PT no segundo turno terá seu voto. “Tenho certeza que vai ser como assistimos no Chile há seis meses. Diversos candidatos de direita concorrendo no primeiro e trabalhando juntos no segundo (turno).”

O candidato do Novo discursou ainda sobre a segurança pública. “O problema do Brasil é que bandido fica solto. A nossa Polícia Militar prende e a Justiça solta”, afirmou.
“Quero o brasileiro se sentindo seguro, podendo andar com o celular na rua. Já fui assaltado três vezes”, disse Zema. “Mas vamos mudar isso. Vamos colocar para mofar na cadeia quem estupra, quem mata e hoje fica solto infernizando a vida das pessoas de bem”.
O político também criticou a atuação do STF “É político ficando cada vez mais rico, com contrato de R$ 129 milhões para a esposa e o povo cada vez mais pobre”, pontuou. Apesar de não citar o nome do ministro Alexandre de Moraes, o valor coincide com o contrato do escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, com o Banco Master.
“Criamos uma casta nova, a dos intocáveis, que estão lá em Brasília se considerando acima da lei, se considerando donos do governo, do Estado e da nação. Sou o candidato que mais tem denunciado esses absurdos, inclusive respondo a um processo do ilustríssimo Gilmar Mendes, com muito orgulho. E não tenho medo, vou continuar falando porque não tenho rabo preso”, disse. História de Levy Teles, Guilherme Caetano, Victor Ohana, Lucas Allabi e Breno Damascena - Estadão.














