Trump chama PCC e CV de terroristas, mas quer liberar compra online de fuzis
- 15/07/2026
Trump chama PCC e CV de terroristas, mas quer liberar compra online de fuzis
Rede Viva News
Revista Fórum - O governo de Donald Trump classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, mas conduz nos Estados Unidos um pacote para facilitar a compra remota de armas, inclusive fuzis. Especialistas alertam que as novas regras, somadas à redução de controles sobre exportações, podem ampliar o desvio de armamentos americanos para facções brasileiras.
A contradição foi detalhada nesta terça-feira (14) em reportagem da BBC News Brasil. Documentos oficiais mostram que o Departamento de Justiça e o Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos dos Estados Unidos, o ATF, apresentaram 34 mudanças regulatórias, entre regras definitivas e propostas ainda em tramitação.
Uma das propostas permite que compradores adquiram armas sem comparecer fisicamente a uma loja. A identidade e os antecedentes criminais seriam verificados à distância, e o armamento poderia ser enviado ao endereço do comprador.
Trump quer facilitar compra online de fuzis nos EUA
A proposta publicada pelo governo americano autoriza vendedores licenciados a transferirem armas para moradores do mesmo estado sem que o comprador apareça pessoalmente no estabelecimento.
A checagem no sistema federal de antecedentes criminais, o NICS, continuaria obrigatória. A diferença é que a identificação do comprador poderia ser confirmada remotamente. O período para apresentação de comentários sobre a proposta termina em 6 de agosto de 2026.
Na prática, o comprador poderia concluir a operação pela internet e receber a arma sem contato presencial com o vendedor. Outra proposta apresentada pelo serviço postal americano revisa as regras para o envio de armas pelo correio.
John Lindsay-Poland, coordenador de um projeto contra o tráfico de armas dos Estados Unidos para organizações criminosas mexicanas, apontou à BBC o risco das mudanças.
“Uma das propostas especialmente preocupantes é permitir a venda e a entrega de armas pelos Correios, sem qualquer interação presencial.”
Segundo o pesquisador, a medida pode alcançar fuzis da plataforma AR-15, uma das mais disseminadas no mercado civil americano e também encontrada em apreensões realizadas no Brasil.
O pacote foi anunciado oficialmente em 29 de abril pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos. O órgão afirmou que pretende reduzir o que considera obstáculos desnecessários aos proprietários e comerciantes de armas.
Trump derrubou barreira para exportar armas a 36 países
O risco não está restrito às vendas dentro dos Estados Unidos. Em setembro de 2025, o governo Trump também revogou uma política da administração Joe Biden que dificultava a exportação de armas civis para 36 países considerados de alto risco.
A lista incluía Paraguai, Suriname, Colômbia e Peru, países que fazem fronteira com o Brasil ou integram rotas internacionais usadas pelo tráfico de armas e drogas.
A regra de Biden estabelecia uma presunção de recusa para pedidos de exportação destinados a países com histórico de desvio de armas, violência política ou violações de direitos humanos. Trump retirou essa barreira e simplificou a documentação exigida dos exportadores.
O Departamento de Comércio dos Estados Unidos declarou que a mudança abriria “centenas de milhões de dólares por ano” em oportunidades para a indústria armamentista americana.
A revogação não eliminou todas as licenças. A maioria das exportações de pistolas e fuzis continua sujeita à autorização do governo. Especialistas, porém, afirmam que a retirada da presunção de recusa pode aumentar a quantidade de armas legalmente exportadas e posteriormente desviadas para grupos criminosos.
Um relatório do Escritório de Prestação de Contas do governo americano identificou que quase 20% das armas dos Estados Unidos recuperadas em cenas de crimes na América Central haviam sido enviadas originalmente por meio de exportações licenciadas.
738 fuzis apreendidos no Brasil eram dos Estados Unidos
Os Estados Unidos já aparecem como uma das principais origens dos fuzis apreendidos pelas forças de segurança brasileiras. Um levantamento do Instituto Sou da Paz analisou 3.119 armas desse tipo recolhidas no Brasil entre 2019 e 2023.
A origem foi identificada em 1.701 unidades. Desse total, 738 haviam sido fabricadas nos Estados Unidos, 586 no Brasil e 377 em outros países.
As apreensões também cresceram. Em 2025, as forças de segurança recolheram 2.152 fuzis no país, alta de 167% em relação a 2021.
Uma das rotas usadas pelo crime organizado começa com a compra legal da arma nos Estados Unidos. Pessoas sem antecedentes criminais adquirem os equipamentos em lojas, que depois são desmontados, escondidos em cargas comuns e enviados ilegalmente ao Brasil.
No fim de maio, a Receita Federal encontrou um fuzil AK-47 enviado da Flórida e escondido dentro de um forno no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas.
Em março de 2025, agentes localizaram outros 30 fuzis desmontados dentro de prensas hidráulicas e diferentes mercadorias no mesmo aeroporto. As cargas tinham como destino São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Em junho deste ano, a Polícia Rodoviária Federal apreendeu 26 fuzis no Paraná, perto da fronteira com o Paraguai. Desse total, 22 apresentavam a marca americana Colt, mas a origem ainda depende de perícia.
Rótulo de terrorista não alcança vendedores americanos
O governo Trump oficializou em junho a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas estrangeiras. A medida permite o bloqueio de ativos e a aplicação de sanções contra pessoas ou empresas que prestem apoio às facções.
A designação, no entanto, não pune automaticamente lojas americanas que vendam legalmente uma arma posteriormente desviada para o crime organizado. Também não torna mais rígida a fiscalização sobre compradores intermediários ou exportadores.
Para Lindsay-Poland, o principal motor do tráfico é o tamanho e a permissividade do mercado civil de armas dos Estados Unidos. Transações consideradas suspeitas podem ocorrer legalmente e só são descobertas depois que o armamento aparece em outro país.
Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, questionou se a ofensiva contra PCC e CV incluirá sanções a lojas da Flórida que aparecem repetidamente no rastreamento de armas apreendidas no Brasil.
Sem medidas contra os vendedores e intermediários, afirmou Langeani, a classificação das facções pode ter mais utilidade política do que efeito concreto sobre o abastecimento de armas.
O governo brasileiro rejeita o enquadramento de PCC e CV como grupos terroristas. O Itamaraty sustenta que as facções devem ser enfrentadas como organizações criminosas e alerta que a classificação pode ser usada para justificar ações unilaterais dos Estados Unidos no território brasileiro.
Fábricas clandestinas ampliam arsenal das facções
Os fuzis americanos não são a única fonte de abastecimento das facções. O Ministério da Justiça e Segurança Pública considera o crescimento de fábricas clandestinas dentro do Brasil uma das principais ameaças atuais.
Em 2025, a Polícia Federal e a Polícia Militar fecharam uma fábrica em Santa Bárbara d’Oeste, no interior de São Paulo, que funcionava sob a fachada de uma empresa de peças aeronáuticas.
O local utilizava equipamentos industriais de alta precisão e tinha capacidade estimada para produzir 3,5 mil fuzis por ano. Algumas organizações reproduzem plataformas estrangeiras, como a americana AR-15 e a russa AK-47, com peças nacionais ou importadas.
As armas clandestinas têm qualidade inferior à dos modelos industriais, mas apresentam custo menor e capacidade suficiente para confrontos urbanos.
Enquanto o Brasil tenta fechar rotas internacionais e fábricas clandestinas, a proposta para ampliar as vendas remotas de armas nos Estados Unidos segue em análise. O prazo de consulta pública termina em agosto, antes de o governo Trump decidir se transformará a mudança em regra definitiva.














