Guerra da Ucrânia: Sob a mira dos drones de Zelenski, Putin dobra a aposta na violência
- 02/07/2026
Putin continua atacando territórios ucranianos, mesmo com uma aparente frustração dos russos em relação à guerra Foto: Efrem Lukatsky/AP Photo
Rede Viva News
Estadão - O presidente da Rússia, Vladimir Putin, está sob pressão.
Nas últimas semanas, a Ucrânia levou a guerra para dentro do território russo de novas maneiras, com ataques a refinarias e em Moscou, aproveitando seus avanços na produção de drones e mísseis.
Será que o aumento dos ataques ucranianos ao território russo acabará convencendo Putin a encerrar a guerra?
Até agora, a resposta parece ser não.
Na quinta-feira, 2, a Rússia lançou ondas de mísseis balísticos e drones contra Kiev, matando pelo menos 18 pessoas, no que pareceu ser uma resposta imediata do Kremlin à pressão e o sinal mais recente de Moscou de que Putin está decidido a manter sua posição.
Ataques aéreos contra refinarias de petróleo russas causaram escassez de combustível em todo o país. O maior ataque de drones a Moscou durante a guerra fez com que enormes nuvens de fumaça negra pairassem sobre a capital russa no mês passado. Além disso, Kiev começou a isolar progressivamente a Crimeia — a península do Mar Negro que o Kremlin anexou ilegalmente da Ucrânia em 2014 —, provocando cortes de energia, graves déficits de combustível e problemas no abastecimento de água na região.
Os russos parecem estar cada vez mais frustrados com a guerra, enfrentando perspectivas econômicas em deterioração, impostos mais altos, restrições à internet, ataques em solo russo e um cansaço generalizado decorrente de um conflito que já dura mais tempo do que a Primeira Guerra Mundial.
Após dias de silêncio, Putin abordou as dificuldades crescentes em uma entrevista a uma emissora estatal no domingo, 28. Ele prometeu resolver os problemas de combustível e produzir mais sistemas de defesa aérea, mas também se comprometeu a continuar a luta no campo de batalha.
Está longe de ser claro se a crescente insatisfação pública com a guerra na Rússia se traduzirá em um desafio político significativo para Putin, visto que ele estabeleceu um sistema autoritário e intensificou drasticamente a censura e a repressão em tempos de guerra.
Alexander Gabuev, diretor do Carnegie Russia Eurasia Center em Berlim, afirmou: “As chances de a maré virar contra Putin existem, mas situam-se na casa de um dígito
“A pressão ucraniana torna isso mais provável, mas não acredito que seja o cenário mais provável”, acrescentou. “O cenário mais provável é que tudo continue como está, com mais destruição e mais mortes de ambos os lados”.
Os cálculos futuros de Putin dependerão, em parte, de até onde a Ucrânia conseguirá ir com seus ataques. Se a campanha aérea limitar ainda mais a capacidade da Rússia de travar a guerra ao destruir fábricas de armamentos e linhas de suprimento, isso poderá forçar Putin a alterar suas ambições.
Em declarações feitas no domingo, Putin afirmou que a Ucrânia enfrentava uma crise aguda de efetivos, sugerindo que ele ainda acredita bastar resistir o tempo suficiente e continuar pressionando até que as defesas ucranianas colapsem.
“Diante da escassez catastrófica de pessoal, as Forças Armadas ucranianas aparentemente acreditam que isso poderia ser sua salvação”, disse Putin. “Mas salvar o regime de Kiev não faz parte dos nossos planos.”
Putin então apresentou uma longa descrição das posições no campo de batalha que, segundo analistas, recorria a uma espécie de “matemática mágica”, com o líder russo reduzindo sistematicamente à metade as distâncias entre suas forças e as cidades ucranianas.
“Ou ele está mal-informado, ou está mentindo, ou ambos”, disse Gabuev. “Mas isso não importa, pois ele parece irredutível quanto a isso. Não creio que, neste momento, haja qualquer indício de mudança.”
Se os ataques ucranianos representarem uma ameaça mais grave à vida da população na Rússia e na Crimeia, isso também poderá provocar maior desafio na sociedade russa e dar voz aos russos defensores de uma linha dura e favoráveis ??à guerra. Há anos, eles argumentam que o Kremlin precisa abandonar a moderação, eliminar o presidente da Ucrânia, Volodmir Zelenski, e recorrer a armas nucleares, se necessário.
Uma das surpresas persistentes do conflito é o grau de sofrimento que Putin tem estado disposto a suportar internamente para alcançar seus objetivos de guerra.
O conflito já isolou a Rússia da economia global, gerou um efeito rebote na região de Belgorod — criando uma zona de guerra dentro das fronteiras russas — e levou a um período de meses em que a Ucrânia ocupou parte da região de Kursk. Provocou um motim de mercenários de curta duração que ameaçou Putin e resultou em um número estimado entre 350 mil e 450 mil mortes de russos no front, além de uma retirada humilhante de Kiev no início da guerra.
Putin manteve-se inabalável.
Se Kiev conseguir manter a pressão sobre a Rússia por meses e afetar a capacidade de Moscou de travar a guerra, isso terá impacto, afirmou Stefan Meister, analista especializado em Rússia do Conselho Alemão de Relações Exteriores. A campanha ucraniana já está forçando Putin a reagir, observou Meister, minando a crença dos russos de que podem vencer a guerra e de que sua liderança é capaz de realizar a tarefa.
Os ataques também prolongam o fardo de Putin no campo de batalha, em um momento em que seus tecnocratas da área financeira lutam para custear as despesas de guerra — que não param de subir — sem provocar consequências ainda mais negativas para a sociedade russa.
“A questão é: ‘O que fará Putin mudar de opinião? Quando o cálculo de custo-benefício começará realmente a mudar de forma fundamental?’”, disse Meister. “Essa é uma pergunta que fazemos a nós mesmos há anos.”
Ele acrescentou: “Quanto a Putin, tenho minhas dúvidas — seja o que for — se ele vai parar.”














