Novo líder supremo herda escritório de segurança que domina decisões da República Islâmica
- 10/03/2026
Mojtaba Khamenei caminha por Teerã em maio de 2019. Ele foi escolhido como o novo líder supremo do país. Foto: Hamid Foroutan/AFP
Rede Viva News
Estadão - Nos anais políticos da República Islâmica do Irã, um dos primeiros episódios públicos notórios envolvendo Mojtaba Khamenei, o homem recém-nomeado como o novo líder supremo do país, ocorreu durante a eleição presidencial de 2005.
Após um candidato azarão, Mahmoud Ahmadinejad, ascender abruptamente ao segundo turno e, eventualmente, à vitória, o político reformista que inesperadamente perdeu escreveu uma carta aberta ao líder supremo acusando seu filho, Mojtaba, de manipular a votação.
“O senhor está bem ciente de que a intervenção imprudente de parentes e assessores de alguns funcionários religiosos e políticos no passado teve consequências muito negativas”, escreveu o candidato da oposição, Mehdi Karroubi, na carta, publicada por dois jornais que foram obrigados a suspender a circulação posteriormente.
Desde então, Khamenei tem a reputação de operar nas sombras, usando o poder do cargo herdado de seu pai para manipular os acontecimentos na república islâmica em favor da facção linha-dura.
O escritório do líder supremo, que ele agora herda de seu pai, o aiatolá Ali Khamenei, sempre desempenhou um papel preponderante nos assuntos do país.
Nos 37 anos em que o patriarca Khamenei governou antes de ser assassinado em um ataque conjunto entre Estados Unidos e Israel, ele transformou o escritório, que era um departamento tradicional de assuntos religiosos com viés político, em uma potência de segurança nacional com supervisão sobre as forças armadas, a inteligência, a economia, as relações exteriores e, claro, o clero.

“Sob Khamenei, o escritório se tornou um completo Estado de segurança, político e econômico dentro do Estado”, afirmou Saeid Golkar, professor de ciência política da Universidade do Tennessee e coautor de um relatório publicado em janeiro passado sobre essa transformação.
Mojtaba Khamenei, de 56 anos, o segundo de quatro filhos, já era considerado o “mini líder supremo”, assessorando o pai na complexa rede de operações do Ministério, acrescentou Golkar. Seus três irmãos também trabalhavam lá em funções de consultoria.
Novo líder
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump afirmou que seu ataque ao Irã deveria lhe dar um papel na escolha do próximo líder do país. Questionado sobre o jovem Khamenei em uma coletiva de imprensa na segunda-feira, Trump disse: “Acreditamos que isso levará a mais dos mesmos problemas para o país, então fiquei decepcionado”. Analistas consideraram a escolha um sinal da busca do regime por continuidade em meio ao tumulto da guerra.
O nome do escritório do Líder Supremo é Bayt-e Rahbari em farsi, que significa Casa do Líder Supremo, frequentemente conhecido simplesmente como Bayt.
No islamismo xiita, a tradição dita que um aiatolá deve estabelecer uma bayt para interagir com os seguidores em questões religiosas e para organizar assuntos como caridade. Um filho é frequentemente designado para administrá-la.

Elemento político
O aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da Revolução Islâmica, adicionou um elemento político a esse aparato. Quando o aiatolá adoeceu antes de sua morte em 1989, seu filho Ahmad Khomeini tornou-se seu guardião. Isso provocou muitas reclamações sobre a interferência excessiva do Bayt, especialmente depois que Ahmad foi acusado de sabotar, por ser considerado liberal demais, o principal candidato esperado para suceder o aiatolá Khomeini.
O sigiloso Bayt, estabelecido pelo líder seguinte, o aiatolá Khamenei, era de uma magnitude completamente diferente. Enquanto o Bayt anterior contava com apenas dezenas de funcionários, segundo Golkar, agora 4.000 pessoas trabalham lá, e outras 40 mil estão afiliadas a diversos órgãos do governo.
O aiatolá Khamenei criou escritórios paralelos para cada ministério, nomeando poderosos assessores para assuntos externos, educação, cultura e outros departamentos, todos com o mandato de garantir que a política governamental estivesse de acordo com seus desejos. Outras equipes cuidam de assuntos militares e de inteligência. Trump impôs sanções ao gabinete do líder supremo em 2019.

Sem credenciais religiosas sólidas ou apoio popular quando se tornou líder supremo em 1989, o aiatolá Khamenei começou a consolidar seu poder por meio dos serviços de segurança e do seu Bayt.
Dada a sua dependência dos serviços de segurança para reprimir as ondas de dissidência cada vez mais frequentes, incluindo o assassinato de milhares de manifestantes de rua meses atrás, o aiatolá Khamenei cercou-se dos comandantes militares da Guarda Revolucionária Islâmica.
O peso religioso do cargo diminuiu ainda mais com a nomeação do filho de Khamenei, afirmou Behnam Ben Taleblu, pesquisador sênior da Fundação para a Defesa das Democracias em Washington. O filho é um clérigo de posição intermediária, embora as declarações oficiais tenham imediatamente começado a se referir a ele como um “aiatolá”.
“Nem Khamenei tinha qualificação religiosa para o cargo, e é quase certo que o novo líder supremo seguirá os passos do pai e cultivará laços com as forças de segurança”, disse Taleblu.
O filho é considerado ainda mais ligado à Guarda Revolucionária, principalmente porque ele analisou as nomeações da última geração de comandantes e sua história com eles remonta à adolescência, quando serviu em uma função não combatente no final da guerra Irã-Iraque, disse Golkar.
Mojtaba Khamenei, que tinha 22 anos quando seu pai assumiu o cargo de líder supremo, amadureceu dentro da Guarda Revolucionária. Ao longo desses anos, a tendência autoritária do regime ofuscou cada vez mais a teocracia que emergiu da Revolução Islâmica de 1979.
“O Irã já passou de um regime teocrático para um sistema de segurança teocrático sob Khamenei, e agora caminha para um Estado de segurança mais completo sob Mojtaba”, avalia Golkar.













