Apreensão de petroleiro pelos EUA na Venezuela sinaliza nova fase de pressão de Trump contra Maduro

  • 12/12/2025

Apreensão de petroleiro pelos EUA na Venezuela sinaliza nova fase de pressão de Trump contra Maduro

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, participa de uma marcha em Caracas Foto: Ariana Cubillos / AP

Rede Viva News

Estadão - MIAMI (AP) — O petroleiro navegava recentemente perto da costa da Guiana quando seu transponder indicou que ele começava a ziguezaguear. Era uma manobra suspeita e a mais recente pista digital de que a embarcação, o Skipper, tentava ocultar sua localização e a valiosa carga armazenada em seu casco: dezenas de milhões de dólares em petróleo bruto ilícito.

Na quarta-feira, comandos americanos desembarcaram de helicópteros e apreenderam o navio de 332 metros — não onde ele parecia estar pelos sistemas de rastreamento, mas a cerca de 360 milhas náuticas a noroeste, próximo à costa da Venezuela.

A apreensão marcou uma escalada dramática na campanha do presidente Donald Trump para pressionar o ditador Nicolás Maduro, cortando o acesso às receitas petrolíferas que há muito sustentam a economia da Venezuela. A ação também pode sinalizar uma campanha mais ampla dos EUA para reprimir embarcações como o Skipper, que, segundo especialistas e autoridades americanas, integra uma “frota fantasma” de petroleiros enferrujados que contrabandeiam petróleo para países sob sanções severas, como Venezuela, Rússia e Irã.

“Existem centenas de petroleiros sem bandeira e sem nacionalidade que têm servido como tábua de salvação para as receitas — receitas de petróleo sancionado — de regimes como o de Maduro, o Irã e o Kremlin”, disse Michelle Weise Bockmann, analista sênior da Windward, empresa de inteligência marítima que rastreia esses navios. “Eles não podem mais operar impunemente.”

Desde que o primeiro governo Trump impôs sanções punitivas ao petróleo da Venezuela em 2017, o regime de Maduro tem contado com dezenas desses petroleiros para contrabandear seu petróleo bruto para as cadeias de abastecimento globais.

Petroleiros operam nas sombras

As embarcações ocultam suas posições alterando o Sistema de Identificação Automática (AIS) — um recurso de segurança obrigatório para evitar colisões — para ficarem totalmente “invisíveis” ou para simular sua localização, parecendo estar a milhares de quilômetros de distância, sob bandeira falsa ou com dados de registro de outro navio.

A “frota fantasma” se expandiu após as sanções dos EUA à Rússia pela invasão da Ucrânia em 2022. Especialistas afirmam que muitos dos navios mal têm condições de navegar, operam sem seguro e são registrados em empresas de fachada que ajudam a ocultar seus proprietários.

Imagem extraída de um vídeo publicado na conta da Procuradora-Geral dos EUA, Pam Bondi, mostra um petroleiro sendo apreendido por forças americanas na costa da Venezuela Foto: Escritório da procuradora-geral dos EUA/AP

Os navios frequentemente transferem suas cargas para outras embarcações em alto-mar, obscurecendo ainda mais suas origens, segundo os especialistas.

O governo de Maduro conseguiu, em grande parte, usar essas táticas para escoar seu petróleo. A produção do país aumentou cerca de 25% nos últimos dois anos, segundo dados da OPEP. Ainda assim, a apreensão de quarta-feira pode marcar um ponto de inflexão, dizem especialistas, prenunciando um possível bloqueio que poderia impedir o contrabando até mesmo por parte de alguns dos infratores mais ousados do setor de transporte marítimo.

“O custo de fazer negócios com a Venezuela aumentou muito”, disse Claire Jungman, diretora de risco marítimo e inteligência da Vortexa, uma empresa de análise de petróleo. “Esses operadores têm alta tolerância ao risco, mas nem eles querem perder um navio. Uma apreensão física é uma categoria de risco totalmente diferente da falsificação de documentos e multas bancárias.”

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, participa de um comício em Caracas Foto: Juan Barreto/AFP

Os últimos movimentos do Skipper

As últimas semanas do Skipper escondido no Caribe foram reconstruídas pela Windward, que utiliza imagens de satélite usadas pelas autoridades americanas para mapear os movimentos da frota fantasma.

Os EUA sancionaram o Skipper em novembro de 2022, quando era conhecido como M/T Adisa, por seu suposto papel em uma rede de navios obscuros que contrabandeavam petróleo bruto em nome da Guarda Revolucionária do Irã e da milícia xiita radical libanesa Hezbollah, do Líbano. A rede seria dirigida por um comerciante de petróleo ucraniano baseado na Suíça, também sancionado, informou o Departamento do Tesouro dos EUA na época.

Nos últimos meses, o navio navegou para a China com uma carga de petróleo iraniano e também foi associado a cargas ilícitas da Rússia, segundo a Windward. No momento da apreensão, informou a empresa, o petroleiro manipulava digitalmente seus sinais de rastreamento para indicar falsamente que estava ao largo da costa da Guiana — que faz fronteira com a Venezuela e é adjacente a um enorme campo de petróleo offshore desenvolvido pela Exxon com forte apoio dos EUA. Ele também usava falsamente a bandeira da Guiana, de acordo com registros internacionais, uma grave violação das regras marítimas.

Conta da procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, na rede social X publica fotos e vídeos do momento em que forças americanas apreendem um navio-tanque na costa da Venezuela Foto: Conta da procuradora-geral dos EUA no X/AP

A Windward informou que o Skipper é um dos cerca de 30 petroleiros sancionados operando perto da Venezuela, muitos deles vulneráveis à interceptação dos EUA por terem registros falsos, o que os torna apátridas sob o direito marítimo internacional.

“É bastante audacioso”, disse Bockmann, da Windward. “Aqui está este navio com bandeira falsa da Guiana, alegando estar em um campo petrolífero da Guiana. É muito bizarro.”

O Skipper tinha cerca de 2 milhões de barris a bordo

O Skipper partiu de águas venezuelanas no início deste mês com cerca de 2 milhões de barris de petróleo bruto pesado, metade pertencente a uma importadora estatal cubana, segundo documentos da estatal PDVSA fornecidos à Associated Press sob condição de anonimato, já que a fonte não tinha permissão para compartilhá-los.

O alto risco gera enormes oportunidades de lucro — o petróleo venezuelano no mercado negro custa cerca de US$ 15 a menos por barril do que o bruto legítimo, segundo Francisco Monaldi, especialista em petróleo venezuelano da Rice University, em Houston.

Monaldi disse esperar que o preço do petróleo venezuelano ilícito caia, pois menos compradores estarão dispostos a correr o risco de ter a carga apreendida. No entanto, alertou que é muito cedo para saber se os EUA imporão um bloqueio total, como o liderado contra o Iraque após a invasão do Kuwait em 1990.

“Depende se isso é apenas um evento isolado ou algo mais sistemático”, disse ele.

O ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, discursa em Caracas Foto: Cristian Hernández/AP

Repressão pode elevar preços do petróleo

Monaldi observou que um possível fator de contenção para novas apreensões por parte de Trump é o impacto sobre os preços da gasolina, num momento em que os americanos se preocupam com o custo de vida. Embora a produção venezuelana tenha caído para menos de 1% da produção global devido ao subinvestimento, os preços das commodities são notoriamente voláteis, e os comerciantes podem temer que táticas agressivas na Venezuela sejam replicadas em outros lugares, disse ele.

Para Maduro, que chamou a apreensão de “ato de pirataria internacional”, os riscos não poderiam ser maiores. O petróleo é há muito a espinha dorsal da economia venezuelana, gerando enorme riqueza, mas criando uma profunda dependência. Refletindo essa faca de dois gumes, o fundador da OPEP, o venezuelano Juan Pablo Pérez Alfonzo, referiu-se em 1975 aos vastos depósitos do país como o “Excremento do Diabo”. Os preços do petróleo caíram 2% na quinta-feira.

“Neste momento, enquanto falo com vocês, a tripulação daquele navio, daquela embarcação que transportava 1,9 milhão de barris para os mercados internacionais, está sequestrada, está desaparecida, ninguém sabe onde está”, disse Maduro durante um evento televisionado na quinta-feira. “Eles sequestraram a tripulação, roubaram o navio e deram início a uma nova era — a era da pirataria naval criminosa no Caribe.”

Na quinta-feira, a líder da oposição venezuelana apoiada pelos EUA, María Corina Machado, aplaudiu a decisão do governo Trump de apreender o petroleiro.

“O regime usa os recursos, os fluxos de caixa provenientes de atividades ilegais, incluindo o mercado negro de petróleo, não para alimentar crianças famintas, não para os professores que ganham um dólar por dia, nem para os hospitais”, disse Machado a repórteres na capital da Noruega, onde recebeu o Prêmio Nobel da Paz. “Eles usam esses recursos para reprimir e perseguir nosso povo.”


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